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10/11/2017 - 00:00
Caçar o quê?
Não há estatísticas sobre o número de animais que morre queimado pelos incêndios, desmatamentos, envenenados por agrotóxicos, tráfico e caça clandestina. E mesmo diante dessa tragédia silenciosa um Projeto de Lei quer legalizar a caça esportiva.
Jeferson Silva / IASB
Florestas vazias:“Não consigo entender como matar animais pode ser sinônimo de diversão e esporte. Muito menos criar abrigo legal para que crianças sejam, como nos EUA, ‘iniciadas’ no manejo de armas de fogo, incentivando a cultura da violência.” Foto: IPÊ/INCAB/Projeto Tatu-canastra
O Projeto Urubu, coordenado pelo professor Alex Bagio, da Universidade Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais, diagnosticou que cerca de um milhão de animais silvestres morrem nas rodovias anualmente. A tragédia não afeta o emocional do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e os Departamentos de Edificações e Estradas de Rodagem (DERs) esta- duais. E mais: os órgãos ambientais esfacelados ou meros cabides de emprego mantêm uma ladainha de justificativas que já se tornou insuportável.

Não há estatísticas sobre o número de animais que morre queimado pelos incêndios, desmatamentos, envenenados por agrotóxicos, tráfico e caça clandestina. E mesmo diante dessa tragédia silenciosa e sem “lama”, o deputado Valdir Colatto (PMDB-SC) quer legalizar a caça esportiva, por meio do Projeto de Lei 6.268/16.

De pessoal, acredito que ele tenha uma personalidade gelada, insensível à beleza da natureza e ao sofrimento de qualquer ser vivo. Provavelmente também aos seres humanos. E como político notabilizou-se por apresentar projetos contra populações indígenas e o meio ambiente de forma geral. Procurei no site do TRE de Santa Catarina a origem das doações à sua campanha, considerando que o PL atende interesse direto da indústria de armas que, coincidentemente, localiza-se no Sul do país. Mas não há informações.

O PL é recheado de absurdos. Prevê “eutanásia”, classificação inapropriada para morte por tiro, envenenamento ou  estraçalhamento  por  cães  para animais que forem considerados nocivos às atividades agropecuárias.

O Brasil tem tido safras recordes de colheita de grãos. Mas maritacas, pássaros-pretos, caititus e outros são responsáveis por prejuízos ao poderoso setor ruralista. Grandes predadores, como as onças-pintadas e pardas, cada vez mais acuados pelo desmatamento, matam animais domésticos para comer. A solução é exterminá-los de vez.

Unidades de conservação de proteção integral, mesmo quase abandonadas pelo poder público, áreas protegidas por alguns particulares e a proibição da caça são os únicos fatores que ainda garantem a sobre- vivência de nossa fauna. Se o PL passar, a fiscalização da Polícia Militar Ambiental e também a dos órgãos ambientais estarão praticamente extintas, pois não haverá mais abri- go legal. Detalhe importante: o deputado apresentou outro PL que prevê acabar com a lista de espécies ameaçadas de extinção. Isso, certamente, facilitará o extermínio das pequenas populações que ainda resistem.

Cultura da violência

Filosoficamente, não consigo entender como matar animais pode ser sinônimo de diversão e es- porte. Muito menos criar abrigo legal para que crianças sejam, como nos Estados Unidos, “inicia- das” no manejo de armas de fogo, incentivando a cultura da violência.

Porém, mesmo que esse aspecto pudesse ser deixado de lado, já que os “ amantes da morte” chegam a dizer que matar animais é “direito humano”, há uma realidade que não pode ser esquecida no processo de discussão desse famigerado PL.

São as “florestas vazias”. Enquanto brigadista, já passei noites e dias combatendo incêndios e sempre me impressionou o fato de raramente vermos animais. Suas populações já foram tão reduzidas que é sorte avistar algum. Caçar o quê, então, “senhor deputado”?

Se um caçador entrar na minha propriedade para matar animais que protejo, posso atirar nele também? Espécies exóticas, introduzidas pelo ser humano, como o javali e a lebre, estão prejudicando a agricultura e o meio ambiente, pois concorrem com a fauna silvestre em diversos sentidos.

A pesquisa de soluções para minimizar o problema deveria, há muito tempo, ter sido priorizada pelo poder público. É preciso muita má-fé ou desinformação para acreditar que esse PL vá resolver o problema.

Centenas de entidades protetoras de animais e defensoras do meio ambiente, alguns parlamentares federais e estaduais, representantes do Ibama, IEF, pesquisadores e Ministério Público estão mobilizados na luta contra a proposta.

Mas é uma luta inglória, principalmente hoje, com o país mergulhado numa crise política marcada por um parlamento que perdeu qualquer noção de respeito ao bem público.

Encerro citando pergunta relativa à finalidade do PL, que faz parte do manifesto entregue à Câmara dos Deputados pela “resistência”: “Comprovar a soberania do homem sobre o meio em que vive? ”
Por Maria Dalce Ricas / Revista Ecológico
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