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06/03/2013 - 15:39
Fechando os olhos para enxergar a floresta
Minha forma de entender a floresta nunca mais será a mesma depois desta experiência. Descobri um novo universo que eu só fazia vaga ideia da existência. E afirmo que nenhum observador é completo sem passar por uma experiência como essa: aprender a enxergar a floresta com seus olhos fechados.
Tietta Pivatto
Juan e sua parábola, capturando sons da mata e a imagem de nós três no Parque Nacional do Viruá.
Sempre que eu vou para a mata em busca de aves fico ansiosa pelas formas e cores daquele ambiente. Ao perceber um pássaro, busco com o binóculo para confirmar suas cores e curtir um pouco de seu comportamento. O canto é sempre bem-vindo para ajudar na identificação. Gosto da sensação que o balançar das folhas ao vento produz junto com os sons das aves escondidas na vegetação.

Porém esta semana percebi que, sem nunca ter precisado usar óculos em 41 anos de contemplação do mundo, me dei conta que eu era extremamente míope ao entrar na mata. E quem me apresentou esta dura realidade foi meu amigo Juan Pablo. Mas quem é Juan?

Em 2010 surgiu uma conversa no grupo de discussão Birdwatching Brasil sobre o que era exatamente observação de aves, e um dos participantes chamou atenção para os deficientes visuais que "observam aves" (leia o texto aqui). A partir de então essa questão sempre esteve presente em minhas palestras e workshops, e acabei me tornando amiga do Juan, conhecendo-o pessoalmente durante o Avistar de 2011.

Juan é um jovem uruguaio que mora no Brasil há oito anos. Aprendeu a tocar piano, desenvolvendo ouvido musical. Daí para gostar de aves foi um passo, para em seguida estudar o canto das mesmas, de suas melodias mais simples às mais elaboradas. Sua deficiência visual lhe proporcionou uma percepção espacial do ambiente ao redor que nós, seres visuais, não entendemos. Ele anda pelos mesmos caminhos que nós mas é como se estivesse em um universo paralelo.

Aproveitando oportunidades que surgiram, este ano fomos convidados a apresentar, juntos, o Workshop de Observação de Aves no Parque Nacional do Viruá/RR. E foi lá que me aproximei deste universo, o mundo de um deficiente visual. 

Todos nós já percorremos trilhas sinuosas, com algumas pontes feitas de caules roliços, lama, cipós enroscando na cabeça e pedras soltas na ribanceira. Mas alguém já cogitou fazer isso de olhos fechados, confiando apenas na atenção do companheiro que caminha contigo? Juan confiou em mim e no Thiago Laranjeiras esta semana, em sua primeira viagem à Amazônia. E embora ele tenha descoberto muitas coisas novas nessa viagem, tenho plena certeza de que o grande aprendizado foi o que ele proporcionou a nós dois, seres limitadamente visuais. 

Sim, limitados. Porque dentro de uma floresta tropical praticamente só ouvimos as aves, com poucas oportunidades de visualização. Mas os ouvidos de Juan capturaram todos os cantos, pios, chamados, alertas que as aves vocalizam na floresta. Muitas vezes, de posse de sua parábola acoplada a um microfone e gravador, foi ele quem nos indicou a exata posição do pássaro no meio da folhagem. Ele enxergava as aves para nós.

Logo cedo entrávamos na mata atrás da sinfonia que a alvorada trazia junto com os primeiros raios de sol. E embora eu sempre tenha apreciado os sons da natureza em suas primeiras horas, foi a primeira vez que tomei consciência dessa sinfonia. Como disse o Juan, cada ave é um acorde da composição maior que é a floresta. Essa foi uma experiência única.

Juan agora é instrutor de cursos de gravação de cantos de aves. Ninguém melhor do que ele para falar sobre esse assunto. Nada mais especial do que estar em suas aulas práticas e receber os fones de ouvido de suas mãos para ouvir as gravações que ele faz, tendo a chance de entender os acordes da sinfonia. Curioso se dar conta de que, para ele, a beleza da ave está em seus elaborados cantos, enquanto que para nós a beleza principal está na harmonia das cores e formas do animal. Mais curioso ainda é se dar conta que boa parte das coloridas aves são as que tem cantos menos interessantes (há exceções, claro...)

Minha forma de entender a floresta nunca mais será a mesma. Descobri um novo universo que eu só fazia vaga ideia da existência. E afirmo que nenhum observador é completo sem passar por uma experiência como essa: aprender a enxergar a floresta com seus olhos fechados.

Obrigada, Juan.

Texto produzido em 12/12/2012.
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